A COR DAS FAVELAS - DO INICIO AO FIM DAS CONSTRUTÇÕES

 PORQUE NÃO SE PINTAM AS CASAS DAS FAVELAS

PORQUE SÃO TÃO DESORDENADAS



Olhando uma postagem no Facebook, onde uma pessoa constante em meu rol de amizades indagou a respeito do por que não colorir as casas das favelas, e ao ver respostas tão absurdas como:

“- Não fazem porque o sujo, o encardido, o destroçado deixa as pessoas com depressão e sem vontade de lutar por uma vida digna e melhor. É uma agenda comunista, destroem e enfeiam tudo, infelizmente.”

“-sem cor, confunde.”

Notem que ambas as respostas mencionadas se referem a primeira a interesses ideológicos, o que até pode ser verdade no tocante a manter favelas, não a sua urbanização, e a segunda, um discreta referência ao residente nas favelas como “bandido por excelência”, como se os moradores de favelas fossem criminosos em potencial.

Diante das respostas que evidentemente são equivocadas, resolvi trazer uma minuta de uma pesquisa, dentre as diversas elaboradas a respeito da estrutura das favelas, seja em morros como no Rio de Janeiro, seja planas como as de São Paulo.

Tal estudo foi feito em relação a um trabalho que estou desenvolvendo relacionado à Segurança e é resultante da observação dos barracos, da forma fragmentária de se construir nas favelas, e de indagações a respeito entre alguns moradores antigos e novos que sempre chegam.

" A construção de uma casa custa tempo e dinheiro", (disse Marcio, um morador do Complexo do Alemão, uma das favelas do Rio de Janeiro, enquanto me mostrava sua casa.)

“É por isso que uma casa leva várias gerações para ser construída: uma laje é construída, colunas erguidas e uma cobertura leve é instalada, mas isso é apenas para marcar onde o próximo pedreiro deve continuar seu serviço. Construir uma cobertura com telhas não é um sinal de riqueza aqui, pelo contrário, significa que não se teve dinheiro suficiente para continuar construindo a casa". (explicou Manoe Ruhe, um urbanista holandês que morou nessa favela durante os últimos seis meses.)

E a conclusão a que cheguei diante das respostas, foi que a arquitetura das favelas é baseada primariamente na IDEIA DE ABRIGO, que difere completamente da prática da arquitetura projetada por arquitetos. 

Eles me informaram, que de inicio os barracos das favelas são construídos a partir de fragmentos de materiais heteróclitos (restos de outras estruturas) encontrados por acaso pelo construtor. 

Assim, no começo, os barracos são fragmentados formalmente. O primeiro objetivo do construtor, que é quase sempre o próprio morador com a ajuda de amigos e dos vizinhos (princípio do mutirão), é de se abrigar ou de abrigar a sua família, não se importando com o tipo de material, nem com a estética da estrutura, mas apenas com a finalidade de abrigar-se e à sua família da chuva, do sereno, do frio e da exposição a olhares, numa forma instintiva de se manter civilizado.

Note-se que geralmente o morador das favelas, ao chegar ali, quase sempre é oriundo da perda de emprego, de moradia, mas nem por isso a sua dignidade de ser humano se perde, a ideia de morar na favela inicialmente é transitória, ele não pretende permanecer ali.

Esse primeiro abrigo é quase sempre precário, mas já forma a base para uma futura evolução.

A partir do momento em que o morador se estabelece, sente-se mais seguro, consegue um meio de renda, ele passa a buscar ou comprar materiais adequados, passando a substituir os antigos, começando a aumentar o barraco e seu espaço, buscando nessa fase melhorar o conforto e recuperar sua dignidade ferida.

A seguir vem às fases de aceitação e adaptação, e depois a fase de acomodação, quando então, já adaptado ao meio, aceitando a condição, e acomodado com a situação, passa buscar melhorar seu status.  

Nessa evolução das fases os barracos vão sendo aprimorados, sem que exista um projeto preestabelecido para a construção ou melhora de um barraco, os materiais encontrados formam a base da construção que vai depender do acaso e da necessidade de se achar novos materiais ou de se poder comprá-los.

Os barracos evoluem constantemente, até chegar à casa de alvenaria, mas mesmo assim a construção não acaba nunca, as casas estão constantemente em obras, pois ainda que já tenham se passado as fases de aceitação e adaptação, e o morador sempre diga que é provisório, que seu interesse é sair dali o quanto antes, na verdade, a acomodação já o domina, e ele já faz parte do meio, e agora busca status, assim está sempre aumentando, melhorando sua obra, mas nunca a terminando, pois o término seria a saída e retorno à vida social anterior, a qual no passado o rejeitou e o levou para ali, onde foi acolhido e agora é respeitado e aceito.

Importante deixar esclarecido, que 90% dos moradores das favelas, são trabalhadores, pessoas de bem, pacíficas e que desejam uma vida tranquila, os 10% que fogem a esse padrão, são oportunistas, bandidos, que se aproveitam da desordem estrutural arquitetônica para se misturar e se ocultar diante da dificuldade em serem localizados.

 

 

J. UANDERLEY VAZ

Especialista em Segurança Pública, Privada, Riscos e Cibersegurança

CRA-SP 6005660

Jornalista Independente – Reg. MTE Nº 0092372/SP

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